Não encontrei uma maneira melhor de cumprimentar você leitor desse blog tão desatualizado. Na verdade tinha tomado a decisão de não escrever mais ao menos durante esse semestre.
Nenhum motivo específico, nada de estranho acontecendo. Só estou querendo cuidar mais de mim e de coisas que no momento são essenciais na minha vida. Um exemplo: minha profissão perpétua e diaconado que estão marcados para os dias 6 e 7 de fevereiro de 2010. O fato é que se descuidamos priorizamos o que é secular e secularizamos o que é essencial.

Esses dias me senti tentado a escrever no blog. Uma amiga ficou muito doente. Os médicos chegaram a pensar que ela não resistiria. Eu sofri muito, mesmo a distância. Cheguei a brigar um pouquinho com Deus. Pedi para Ele não permitir que ela se fosse tão precocemente. Graças a Ele e aos médicos – é claro – ela está se recuperando. Não está mais entubada e nem no CTI. Continua em tratamento, porém, o pior já passou. Quis escrever para fazer uma homenagem a ela, mas fiquei firme no meu propósito e não escrevi. Ainda bem sempre dá tempo, por isso, acabei fazendo agora.
Mas, hoje, não deu. Padre Irineu, um padre velhinho aqui de casa, de 95 anos, que eu ajudei a cuidar durante alguns meses no ano passado, depois de tantos sofrimentos e intempéries com a saúde, literalmente dormiu para sempre. É emocionante ouvir os fratres que estavam com ele no hospital contarem como ele partiu:“Tinha tomado banho pela manhã com mais dificuldade do que nos outros dias. Estava deitado, quietinho na cama. O frater Douglas perguntou se ele estava com fome. Ele disse que não. Perguntou se estava sentindo dores. Também respondeu negativamente. A enfermeira, experiente, disse aos fratres: Rezem um pouquinho com ele, ele vai descansar. Acharam que ele iria dormir, ou algo assim. Ele tranquilamente, rezando com os meninos, fechou os olhos e dormiu mesmo. Mas para não mais acordar aqui. Padre Irineu com certeza está gozando das alegrias eternas que todos nós desejamos alcançar um dia. Uma morte serena e tranqüila, digna de ser invejada... Não sei se é questão de merecimento, mas depois de tanto sofrimento, ter uma morte tranqüila e em paz como foi a dela, foi no mínimo um consolo.
Podem me achar piedoso demais, tenho certeza que não sou. Até queria ser mais um pouco, mas...
... Chamou-me a atenção o seguinte fato. Às vezes, quando eu chegava no quarto do PE. Irineu, ele logo falava: Você esta escutando os passarinhos cantarem lá fora? E realmente estavam. Eu, de vez em quando, ligava o meu celular num toque que tem um passarinho cantando. Com o celular no bolso, entrava no quarto dele. Ele achava que eram os tais passarinhos novamente cantando. Mas não eram, era somente o meu celular. Nunca fiz por mal, só fazia porque sabia que ele gostava e fazia bem para ele. Hoje quando o caixão entrou em nossa capela, uma andorinha entrou junto. Ficou um bom tempo revoando lá dentro e cantando. Eu logo pensei: “Que fidelidade”. Pe. Irineu foi sempre um religioso fiel. Seus amigos pássaros também foram. Marcaram presença nesse momento contrastante. De ida e de chegada. De adeus e de acolhida...
Vamos sentir saudades aqui em casa do senhor Pe. Irineu. Tenho certeza que está bem melhor do que estava por aqui. Agora o senhor não sente mais aquelas dores que tanto lhe incomodavam. Vai poder cantar mais serenamente: “Acordei de madrugada, fui varrer a Conceição. Encontrei Nossa Senhora, com seu raminho na mão”... Até!

Um dia me disseram que uma laranja podre dentro de uma caixa de laranjas seria capaz de apodrecer todas as demais laranjas. Sinceramente, nunca acreditei nessa hipótese. Acho que estou mudando de opinião. Porém, tenho avançado nessa reflexão. Se uma laranja estragada é capaz de estragar as demais, uma mente “doente” é capaz de estragar e contaminar negativamente a sociedade. Estou lembrando agora do contexto e das pessoas envolvidas na segunda guerra mundial. O que dizer da ideologia e das atitudes de Hitler? Ele conseguiu contaminar sua época e deixou resquícios que se arrastam até os dias de hoje. Um professor que ainda não conseguiu se encontrar como ser humano, consegue fazer uma turma toda tomar distância do apaixonamento pela busca do saber. Um formador neurótico consegue mais deformar do que formar. Um líder religioso desequilibrado consegue fazer com que pessoas se afastem da comunidade e relativizem a relação com o Ser transcendente, cuja necessidade de relação é intrínseca ao ser humano. Que pena!


